MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
06/02/2004
ENTREVISTA: ELOYR PACHECO
 
 
Brainstore
 
 
Preacher de Garth Ennis
 
 
Etrigan
 
 
Hellblazer
 
 
 
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ELOYR PACHECO, diretor editorial e editor-chefe da Brainstore, concedeu ao HQM uma entrevista exclusiva, onde fala de seu início no mercado editorial de quadrinhos, de sua passagem pela Metal Pesado como editor, da distribuição dos títulos e muito mais.

HQM: VAMOS COMEÇAR FALANDO DE VOCÊ. COMO COMEÇOU NA ÁREA DE QUADRINHOS? O QUE FAZIA ANTES DE SER EDITOR? ELOYR PACHECO: Desde que me entendo por gente, leio quadrinhos. Tive uma banca de revistas, depois montei uma loja especializada que existe até hoje em Londrina-PR, minha cidade natal. Escrevi sobre quadrinhos para a Folha de Londrina e para o Jornal de Londrina. Fiz rádio e televisão. Participei durante oito anos do Conselho de Cultura na área de letras e artes. Desenvolvi eventos na área de quadrinhos, RPG e ficção-científica. Em 1997, fui convidado para trabalhar como secretário de redação da revista Metal Pesado. Deixei Londrina e me radiquei em São Paulo. HQM: COMO FOI SUA PASSAGEM COMO EDITOR DA METAL PESADO? ELOYR: Trabalhei na Metal Pesado no período de fevereiro de 1997 a janeiro de 1999, onde pude atuar ao lado de profissionais como Jotapê Martins e Álvaro de Moya, além de conhecer grandes artistas como Marcelo Campos, Roger Cruz, Luke Ross, citando apenas três dos muitos que conheci. Isso foi muito gratificante, compensador de fato. Aprendi muito, trabalhei muito, me dediquei muito. Foi muito bom enquanto estive lá. HQM: COMO SURGIU A BRAINSTORE? ELOYR: Da minha vontade de publicar quadrinhos. HQM: TRABALHANDO NO RAMO, AINDA SOBRA ALGUM TEMPO PARA SER UM SIMPLES LEITOR? SE SIM, QUAIS COSTUMAM SER SUAS LEITURAS? ELOYR: Hoje, depois de tanto tempo trabalhando na área é difícil conseguir ler uma HQ sem ser profissional. É claro que continuo tendo os meus quadrinhos de cabeceira. Aprendi com Álvaro de Moya (faço questão de dar o crédito) que analiso tudo tecnicamente, mas na hora “H” é mesmo o “eu gosto” ou “não gosto” que vale, por isso procuro manter vivo o meu lado de fã. Hoje, além de acompanhar os lançamentos das principais editoras nacionais e americanas, eu estou colecionando DC Archives e Essential, da Marvel, e aos poucos organizando minhas coleções da Ebal, Bloch, RGE, Abril... Aos poucos, porque sempre que vou arrumar alguma coisa acabo relendo alguma história. Mas, depois de um dia de trabalho prefiro assistir à TV. Acompanho Smallville, CSI e Friends, sempre que posso. Recentemente acompanhei Taken, exibido pela HBO. Também gosto de ir ao cinema (recentemente vi O Último Samurai) embora seja mais cômodo alugar DVDs (taí uma coleção que preciso investir mais). À noite também leio um pouco, mas não quadrinhos. Ultimamente minhas leituras têm sido sobre teoria literária. HQM: RECENTEMENTE, SE FALOU QUE A BRAINSTORE ESTAVA ATRASADA NOS PAGAMENTOS DE DIREITOS DA DC, MAS APARENTEMENTE, TUDO JÁ FOI RESOLVIDO. COMO FOI O CASO? ELOYR: Como você mesmo esclarece ao me fazer esta pergunta, tudo já foi resolvido. Negócios são negócios, (risos) e às vezes, são difíceis de conduzí-los com serenidade. Nem sempre as coisas acontecem como planejamos. HQM: FALANDO NA DC, ALÉM DE ETRIGAN - O DEMÔNIO, EXISTEM CHANCES DE ALGUM OUTRO PERSONAGEM QUE TINHA SEU DESTINO VINCULADO AO DA REVISTA "DC MILLENNIUM" TER ALGUMA HISTÓRIA PUBLICADA? ELOYR: Etrigan sempre teve seu “destino”, como você define, vinculado à linha Anti-Heróis do Universo DC, da qual Lobo e Hitman também fazem parte. Publicá-lo na DC Millennium era apenas uma alternativa para apresentar aos leitores a fase anterior à escrita por Garth Ennis. Quando decidimos parar de publicar a DC Millennium também nos comprometemos em não trabalhar com “super-heróis”, exceto os mais “sombrios” que estão na revista Dark Heroes. HQM: E A TÃO FALADA PRIORIDADE NOS TÍTULOS VERTIGO/DC. COMO FUNCIONA? ELOYR: A Brainstore tem a “preferência” na publicação de títulos da linha Vertigo, nenhuma “prioridade”. No momento estou empenhado em cuidar dos títulos que publicamos, e que não são poucos. HQM: UM DOS MAIS FAMOSOS E ELOGIADOS TÍTULOS DA VERTIGO ESTÁ CHEGANDO AO SEU FIM NO BRASIL: PREACHER. ALGUM OUTRO TÍTULO IRÁ SUBSTITUÍ-LO? MUITOS LEITORES PERGUNTAM SOBRE "Y – THE LAST MAN" e "THE FILTH". ELOYR: Levar Preacher até o fim da saga é uma grande responsabilidade, além de um grande feito. Isso ajuda a complementar a resposta da pergunta acima. Não há como simplesmente substituir um título do nível de Preacher. Por enquanto, tenho apenas algumas idéias que podem se viabilizar, mas não me sinto com esta obrigação. HQM: COM A CHEGADA DE JOHN CONSTANTINE AOS CINEMAS, HAVERÁ ALGUM LANÇAMENTO ESPECIAL DO PERSONAGEM APROVEITANDO A ATENÇÃO QUE O FILME PODE ATRAIR? ELOYR: Sim, claro! Constantine - é assim que o filme se chamará -, estrelado por Keanu Reeves, o Neo de Matrix, deverá estrear nos EUA em setembro deste ano. O que posso adiantar é que estamos em contato com o pessoal da Warner para fazer algo juntos, pelo menos alardear aos quatro ventos que Constantine é baseado numa revista em quadrinhos. Creio que isto ajude a divulgar a publicação, aumento de vendas é uma conseqüência, mas não espero nenhum resultado imediato. HQM: NOS ÚLTIMOS TEMPOS, A BRAINSTORE SOFREU VÁRIAS MUDANÇAS. UMA DELAS FOI DE DEIXAR A EXCLUSIVADADE DO HQ CLUB. O QUE LEVOU A ESTA DECISÃO? ELOYR: A Brainstore estará completando em março, cinco anos de existência, e deixar de lançar alguns títulos com exclusividade pelo HQ Club ocorreu há mais ou menos dois anos, não tenho mais o que comentar sobre o assunto. Só quero lembrar que esses mesmos títulos não foram cancelados. Preacher e Sandman, dois dos principais lançados durante um período através deste sistema de exclusividade, continuam sendo editados e ainda são distribuídos pelo HQ Club, que é uma ótima alternativa para o mercado de quadrinhos no Brasil, mas não são exclusivos. O que não estabeleça que não tenhamos no futuro algum acordo para fazer novas publicações. A Brainstore também distribui pela Devir, pela Fernando Chinaglia e Expressão Editorial, além de ter internamente um suporte para os distribuidores e lojistas. HQM: UM PROBLEMA QUE VEM SE MOSTRANDO CADA VEZ MAIS FREQÜENTE COM TODAS AS EDITORAS NO BRASIL SÃO OS ATRASOS. CASOS COMO O DE "CAPITÃO BRETANHA" DA PANDORA BOOKS OU "DEMOLIDOR - O HOMEM SEM MEDO" DA DEVIR JÁ SÃO FAMOSOS. NA BRAINSTORE, TAIS ATRASOS TAMBÉM VÊM OCORRENDO, PRINCIPALMENTE COM OS TÍTULOS SANDMAN APRESENTA, DARK HEROES E HITMAN. ESTE ÚLTIMO, TEVE TRÊS EDIÇÕES LANÇADAS EM DEZEMBRO. O QUE CAUSA TANTOS ATRASOS? ELOYR: Esse é um problema sério. O “vilão” sempre é a gráfica. Mas não é só isso, é a máquina que quebrou, o fotolito que atrasou, o arquivo digital que não chegou, o papel que subiu de novo, e por aí vai! Precisamos ajeitar isso porque quando ocorre um atraso de impressão, também temos problemas com a distribuição. Quando um título atrasa não podemos deixar que eles se acavalem nas bancas. É o caso que você cita de Hitman que acabou por ter três edições juntas nas bancas e do Lobo que está com duas. Na comic shop esse problema é menor porque o leitor se organiza para comprar o que coleciona, mas na banca a coisa não funciona assim. Para colocar em ordem um título, publicando mais edições num menor espaço de tempo, mesmo se diminuímos de 28 para 22 dias de exposição em bancas, não temos como deixar o material parado por muito tempo devido aos pagamentos que temos de realizar. Veja que, citando novamente Hitman, estamos nos esforçando para arrumar a freqüência, tanto é que investimos em três edições num curto período de tempo. Mas, também temos o problema do poder aquisitivo do leitor que não poderá adquirir essas mesmas três edições de uma só vez, ou num menor espaço de tempo do que havia imaginado. Posso te garantir que temos o maior interesse em resolver isso, mesmo porque, num caso como esse, as vendas num primeiro momento acabam caindo. O freqüentador de loja especializada tem mais facilidade em manter a sua coleção em ordem, mas o leitor que compra na banca de revistas não. Este talvez até venhamos a perder pela falta de freqüência e regularidade da publicação no ponto de venda. No momento, para acabar com os atrasos ou, pelo menos, para minimizá-los temos mais de uma gráfica imprimindo para a Brainstore. HQM: OUTRO PROBLEMA É A DISTRIBUIÇÃO. CONFORME OS PRÓPRIOS LEITORES, AS REVISTAS DA BRAINSTORE NÃO CHEGAM EM VÁRIAS REGIÕES DO PAÍS. ALGO ESTÁ SENDO FEITO PARA SANAR ESSE PROBLEMA? ELOYR: Como eu dissertei nas duas respostas anteriores, estou ciente do quanto uma distribuição bem feita é importante. Estamos trabalhando com uma estrutura maior de distribuição, mas sendo bastante sincero, nossos leitores não devem esperar que as publicações da Brainstore sejam facilmente encontradas em todo o país. Isso não é possível, pois com uma tiragem pequena a distribuição tem que ser dirigida. Infelizmente, é assim que a coisa funciona. A questão é matemática. O sistema por fases funciona, mas é lento e não agrada os leitores das regiões que não as do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, onde temos concentrada a maior parte das vendas de todo o Brasil. Sempre sugiro que os leitores, principalmente os colecionadores, que é nosso maior público, entrem em contato com lojas especializadas. Essas lojas fazem reserva e muitas delas atendem pelo correio, há uma lista delas em nosso site - www.brainstore.com.br. Estamos trabalhando também com livrarias de todo o Brasil e a Submarino - www.submarino.com.br - disponibilizou praticamente todas as nossas publicações em seu site. HQM: HÁ MUITO TEMPO ATRÁS, A BRAINSTORE SE AVENTUROU NO TERRENO DOS QUADRINHOS NACIONAIS COM, ENTRE OUTRAS, UMA EDIÇÃO ESPECIAL DO PERSONAGEM QUEBRA-QUEIXO DE MARCELO CAMPOS. NA ÉPOCA, EXISTIA A POSSIBILIDADE DO PERSONAGEM GANHAR MAIS EDIÇÕES, MAS RECENTEMENTE, ELE ESTRELOU UM ESPECIAL PELA DEVIR. A BRAINSTORE AINDA TEM ALGUM INTERESSE EM QUADRINHOS NACIONAIS? ELOYR: Sim. Estamos trabalhando em três projetos nacionais no momento, mas prefiro não comentar nada por enquanto. HQM: E QUANTO AO REDIRECIONAMENTO QUE A BRAINSTORE VEM TENDO, COM MAIS ENCADERNADOS E MATERIAL MAIS ALTERNATIVO, COMO LEGIÃO ALIEN E CLERKS? PODEMOS ESPERAR ALGO MAIS NESTE SENTIDO? ELOYR: Sim. Junto com O BALCONISTA (Clerks) também acertamos com a Image o lançamento de KABUKI, de David Mack e TORSO, de Brian Michael Bendis (NOTA DO HQM: esses três últimos foram anunciados recentemente pelo HQM). HQM: VOCÊ PODE NOS REVELAR MAIS ALGUMA NOVIVADE PARA O FUTURO? ELOYR: Acordamos com Rick Veitch para lançar no Brasil o polêmico BRAT PACK e estamos renovando com a Checker Books para continuar a linha que iniciamos no ano passado, sendo que os dois primeiros devem ser SUPREMO – O RETORNO e HELLRAISER II. HQM: COMO VOCÊ DEFINIRIA A SITUAÇÃO ATUAL DA BRAINSTORE E ATÉ MESMO DO MERCADO DE QUADRINHOS NO BRASIL? ELOYR: A Brainstore Editora está completando cinco anos de existência e isso é significante num mercado tão competitivo e difícil como o nosso. Eu acredito nos quadrinhos como negócio, afinal tenho vivido (e sobrevivido!) (risos!) na área há todo esse tempo. O que posso afirmar é que, infelizmente, o tempo dos quadrinhos de massa (tiragens gigantes, preços baixíssimos) já se foi. Filmes como X-Men, Homem-Aranha e Hulk estão colaborando para divulgar as HQs e mantê-las em produção, mas seria surpreendente que elas voltassem a ter os números que já alcançaram. Sempre é bom lembrar que Homem-Aranha, Batman, Super-Homem são ícones da cultura pop e que nunca (creio piamente nisso) deixarão de circular no formato revista. No meu caso que trabalho com “quadrinhos adultos”, eu acredito que um filme como Constantine possa ajudar a alavancar os títulos da Vertigo. Mesmo que não tenhamos mais espaço em bancas, o procuraremos em livrarias, além disso, as lojas especializadas também estão cumprindo seu papel. A Brainstore sempre vai brigar por espaço para expor suas publicações. Os quadrinhos podem ter deixado de ser de massa, mas os fãs continuarão tendo o que ler. Recentemente li no caderno Mais!, da Folha de São Paulo, a transcrição de uma palestra proferida por Umberto Eco, na Biblioteca de Alexandria, onde o grande estudioso afirma que a expansão da Internet não ameaça a existência dos livros, porque estes fazem parte da memória primitiva do homem. Por isso, eu acredito que as revistas em quadrinhos, assim como os livros, têm vida longa!

HQM: POR ÚLTIMO, A PERGUNTA DE PRAXE: ALGUM RECADO PARA OS LEITORES DA BRAINSTORE? ELOYR: Eu gosto de quadrinhos. Nós da Brainstore gostamos de quadrinhos. Como digo sempre aqui dentro para os meus colaboradores, “não publico tudo que gosto, mas gosto de tudo que publico”. Podem ter certeza, estou fazendo o melhor que posso, mas sei também que posso melhorar ainda mais o que estou fazendo. Espero continuar merecedor da confiança e do apoio daqueles que gostam dos títulos que eu publico.
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